|

Amor e solidão

-Mário, o que é que estás a fazer ? Para onde o levas ? , perguntei, mas sabia bem. Ele voltava para casa e tencionava leva-lo com ele.

O quarto estava como o deixamos, e os lençóis da cama, ainda desfeitos e impregnados com o nosso cheiro. Não gostei, que ele deitasse o corpo daquele estranho no nosso leito de amor. E não pude deixar de reparar, como o seu corpo magro, e ainda tão jovem, era perturbantemente belo. E Mário parecia totalmente hipnotizado por ele, enquanto eu me consumia no meu ciúme.

As velas tinham todas ardido e a única luz que iluminava o quarto era a luz da lua. Eu podia ver o seu olhar deslumbrado e brilhante quando ele posou a cabeça do estranho delicadamente numa almofada.

-Deixa-o . Já fizeste o suficiente por ele, agora deixa-o dormir. - Disse-lhe com a mesma voz calma e convincente que usara sempre. Voltou-se para mim.
- Vê, Pedro, como ele parece cheio de vida. Como se a morte não lhe conseguisse roubar a frescura, a vontade de viver é demasiado forte. - disse-me com aquele brilho na voz e no olhar, que me arrepiou.
Estava totalmente hipnotizado por aquela criatura. Sabia que não a iria deixar morrer.

Recordei o modo selvagem como ele o queria quando o viu no seu leito moribundo. Resisti, e contive mais uma vez o meu ciúme. Ainda tinha esperança que Mário caisse em si e deixasse partir a alma do miúdo, esquecendo o seu corpo como devia ser. Mas ele continuava hipnotizado por aquele adolescente belo e de aparência doce.
Debruçou-se ainda mais sobre ele e pousou a mão no seu peito que mal se movia com a respiração, e acariciou-lhe a cabeleira loira e brilhante. Eu não suportava mais olhar para eles. E tentei dizer-lhe que o melhor para o miúdo era deixa-lo morrer simplesmente. Mas foi inútil. Mário continuava surdo para mim, debruçado sobre ele, e eu podia continuar a sentir o seu perfume suave de adolescente forte e a pulsar apesar da doença e da morte. Por fim, ele gemeu, remexeu-se no sono, e isso era mais do que eu poderia suportar. Tinha de mata-lo, antes que acordasse... Aproximei-me da cama com paços de gato, aproveitando uns instante em que Mário se deixara cair no sono, exausto. Mas quando lhe começava a apertar o pescoço, Mário saltou sobre mim como uma fera e empurrou-me violentamente para fora da cama.

- O que é que ias fazer ? Não voltes a tocar-lhe, ouvis-te ? Ele é meu e vou ficar com ele. Ai de ti se lhe voltas a tocar. - Gritou ameaçador com uma expressão tão aflita e raivosa como uma fera protegendo a cria. Fiquei perplexo. Nesse instante tive a sensação de o ter perdido para sempre.

Depois de mais de 20 anos de uma relação de amor e paixão intensa, tudo ameaçava terminar dessa forma tão inesperada e humilhante. Estava a ser trocado por um adolescente que possuía toda a frescura que eu um dia já tivera e perdera...

Eu continuava suficientemente belo e jovem para continuar despertando desejos... E havia parado de envelhecer aos 30. Mas sabia bem que nunca poderia competir com um adolescente de 16 anos. Alem disso, ele trazia consigo o gosto da novidade.
Como alguém pode abandonar uma relação de tantos anos felizes, para se entregar a uma pessoa que acabou de conhecer ? Até ai, Mário tinha sido tudo para mim, e acreditava ter encontrado o cúmplice ideal para a vida inteira... E de repente, a nossa relação ameaçava desmonerar como um simples castelo de cartas... Como é que ele podia trocar-me assim de um momento para o outro ? Senti-me terrivelmente traído.
E tive de sufocar essa amargura dentro de mim porque ele continuava surdo e só tinha olhos para aquele desconhecido. Sentia-me impotente. Afastei-me da cama e deixei-me cair sobre um cadeirão a mitigar todo o meu sofrimento, e ali fiquei durante grande parte da noite, a observa-los, demasiado fraco para me mover.

- Acorda, acorda, ouve-me, volta. - A cena não podia ser mais patética e a mim parecia-me totalmente irreal. Mário levava-o agora do quarto para a sala e a sua voz era tão suave que eu quase não a ouvia.
-Estás a ouvir-me ? Fala comigo. - repetia enquanto segurava o corpo do miúdo entre os braços e agitava as assas como se fossem levantar voo.
- Maldito, - gritei desesperado.

Ele olhou para mim com os olhos fulgurantes. Sentou-se, por fim na cama com o corpo do miúdo nos braços, e eu podia ver o seu peito á procura de ar e o rosto contorcido de uma maneira que eu nunca antes tinha visto.
Mário deixou escapar um gemido e disse para ele continuar, e quando me levantei da cadeira, olhou para mim como que a dizer, "lamento, mas o que sinto por ele é mais forte do que eu".

- Mas porquê Mário ? Porque ? - murmurei-lhe sem aguardar resposta. Completamente exausto, e com os olhos cheios de lágrimas, adormeci.

Quando despertei, já o sol ia alto e ouvia-se na rua o barulho das pessoas e dos carros. Por momentos, não me lembrei onde estava e só quando ia começar a pronunciar o nome de Mário, é que me veio á cabeça as lembranças da noite anterior.
Senti um gosto amargo na boca que me obrigou a cuspir e aproximei-me da cama onde ambos ainda dormiam em sono solto.

Para meu espanto, o miúdo parecia agora totalmente recuperado e deitara a cabeça sobre o peito de Mário, que por sua vez, o apertava contra si, como dois apaixonados. A cena não poderia ser mais comovente, o que me despertou uma certa ternura. Afinal, o miúdo não tinha culpa nenhuma daquilo que se estava a passar, e todo o amor que eu sentia por Mário não me permitia que lhe guardasse rancor por muito tempo. E se ele estava mesmo apaixonado pelo miúdo, a única coisa que eu poderia fazer, por mais que me custasse, era tentar perdoar-lhe e aprender a viver com isso. E foi com estes pensamentos que Mário me surpreendeu ao acordar.

Pareceu-me diferente como nunca o vira. Como se tivesses despertado outro que nunca fora. E a razão disso, estava ali nos seus braços como eu nunca estivera e era olhada como eu nunca fora.

Sorri-lhe sem mostrar que morria por dentro e ele também me sorriu com uma ternura que eu tão bem conhecia, e que me fizera ama-lo tanto.

Decorridos vários dias, o miúdo já se restabelecera totalmente e o romance entre ambos parecia cada vez mais intenso, enquanto eu ia lutando contra as minhas emoções e tentando ser o mais compreensivo possível. Assim vagueava pelas ruas perseguido pelo ciúme e pela amargura, e os meus olhos tinham o pálido fulgor de uma candeia.
Dei comigo a entrar numa igreja. E a perguntar-me o que significava viver para sempre ? Naquele instante, senti como se viver eternamente fosse uma maldição. E ansiei pelo conforto libertador da morte. Pois como poderia eu aguentar o resto da eternidade sem Mário ?

Fui despertado pelo som das vozes de mulheres a subir e a descer com ave-marias, o som dos terços, o cheiro da cera... E percebi que estava na sala fúnebre, onde se velava um defunto. E levado por um desejo súbito. Aproximei-me do caixão, debruçando-me sobre o cadáver. Era o corpo de um adolescente e estava coberto por um fato cinza, e reparei que sobre a camisa se adivinhava um peito firme e musculoso ganho certamente á custa do trabalho ardo-o nos campos. Os seus lábios eram tão carnudos e vermelhos como cerejas acabadas de colher. E a sua pálida pele de pêssego parecia um convite para os meus beijos e caricias... Na verdade nem parecia estar morto. Mais parecia adormecido e a aguardar por mim... Nesse instante percebi que as pessoas me olhavam desconfiadas e com receio, como se percebessem o que eu era.

Afastei-me e vime a andar rapidamente por um corredor e a bater com a porta. Mas não me afastei da entrada da igreja, fiquei ali preso sem saber bem porque o fazia. Entretanto, havia escurecido e as ruas estavam palidamente iluminadas pelos candeeiros. Do interior da igreja continuava a sair o som dos soluços das mulheres. Deus não vivia nessa igreja, essas imagens eram vazias. Eu era a única coisa sobrenatural naquele local. Senti solidão. Solidão ao ponto da loucura. Nesse instante despertou-me um súbito bater de assas, um perfume que me era tão familiar. Mário, teria finalmente, decidido cumprir a sua natureza e voltado para junto de mim ? 

|