|

Na floresta mágica

Existe um lugar onde podemos ser belos jovens para sempre!

Ao meu ex-namorado virtual

Mário estava sentado na sala de espera da secção de oncologia, a pensar nos seus tempos de juventude, quando a percepção o atingiu. Foi como um soco vindo do escuro, fazendo-o ofegar e respirar ruidosamente. De repente, a sala de espera estava a aspirar tudo com violência: os outros pacientes, as folhas das revistas, os vasos de plantas, os outros pacientes a rodarem, a rodarem como roupa numa máquina de lavar. Até que tudo se esfomou no ar como uma nuvem de pó levada por um pé de vento.

Obscuramente sentiu que o livro que estava a ler lhe escorregara da mão e caíra. E apercebeu-se que subitamente o ambiente da sala tinha mudado misteriosamente. Notou que a pele das suas mãos tinha milagrosamente rejuvenescido e depois confirmou através do vidro da porta, que tinha voltado a ser jovem. Sentindo-se evadido por uma energia e uma alegria que há muito tempo não se lembrava de sentir, levantou-se da cadeira e encaminhou-se para a saída do hospital.

Lá fora o ambiente também havia mudado totalmente. E em lugar da calçada, prédios, carros, e pessoas, encontrou uma floresta com muitas arvores floridas em tons claros, sobre um tapete colorido. Tudo em amarelo, verde alface, rosa, azul celeste...

Os pássaros eram das mesmas cores claras. E as nuvens de algodão doce.. Sentia-se muito leve como se os pés não tocassem o chão. Por instantes, perguntou-se, se não estaria morto. Se assim fosse, e se estivesse a entrar no paraíso, este parecia ser exactamente como o imaginara, caso existisse. Admirou-se por não haver pessoas, mas de repente apercebeu-se que se fechasse os olhos e pensasse numa pessoa ou num local, o seu corpo era imediatamente transportado para lá. E a primeira pessoa que lhe veio á cabeça foi o Pedro. Aquele que um dia escolhera para viver o resto dos seus dias e que tanto tinha amado. Até o dia em que fora trocado por outro bem mais jovem.

Surgiu na sua frente igualzinho como quando se conheceram, naquele fim de tarde na praia...e ficou a olhar para ele a chorar de emoção. Abraçou-o com toda a força e os seus corpos flutuavam no espaço desfazendo-se em mil caricias como pétalas de flores soltas no ar. De pente, os seus corpos pararam de girar e a emoção do reencontro deu lugar ao ressentimento... Quis perguntar-lhe o porquê, e havia tantos porquês...mas já tinha sido transportado para longe. Agora na sua frente estava Miguel. Imóvel. Frio e duro como se fosse uma estátua de pedra. O seu namorado virtual... Tão maravilhoso e lindo como um dia o imaginara...Aproximou-se beijando-o apaixonadamente sobre os lábios. Murmurando: "amo-te neste instante em que te beijo"...

Subitamente, o corpo de Miguel começou a ganhar vida ao mesmo tempo que ia aumentando de temperatura, até que os seus braços se ergueram e puxaram Mário ainda mais para si e a sua boca se abriu e os dois se puderam finalmente beijar pela primeira vez... E seus corpos também flutuaram no ar, entre pétalas de flores multicolores, entrelaçados um no outro em mil caricias de paixão.

Mas uma vez mais, tudo se esfumou no ar, ao lembrar-se que Miguel se casara e tivera filhos... e voltou assim a ficar sozinho. Mas estranhamente, continuava a não se sentir só...
- O senhor sente-se bem ? - perguntava o homem da cadeira ao lado, apanhando o livro que ele deixara cair.
Mário voltou á realidade, mas sabia que lhe bastava fechar os olhos, e o seu espírito seria imediatamente transportado para onde quisesse. Para um local onde tudo era maravilhoso e onde poderia ser jovem e belo para sempre.

- Obrigado - Respondeu agarrando o livro. Depois encaminhou-se para o outro lado da sala onde se deixou tombar num banco macio. Encostou a cabeça á parede de vidro que separava as duas salas de espera e ficou a olhar através dele.
A sua respiração ofegante enevoou o vidro. Se fosse uns há uns anos atrás, teria aproveitado para lhe desenhar um coração... Mas naquele instante, ali em pleno mundo real, tal gesto, pareceu-lhe ridículo.

De repente começou a pensar no final de 2002 - e foi contagiado com todo o horror da recordação e do aniquilamento. Aquele fora o limite que o médico lhe dera para estar vivo...
- Senhor Mário ? - ouviu alguém chamar.
- Sim - respondeu. Levantou-se e caminhou pelo longo corredor para o qual davam os misteriosos gabinetes dos médicos, ás salas onde se faziam os exames. Deslocava-se com receio dos instrumentos que ia descortinando, de repente, através de portas ligeiramente abertas.

Fora um interno que lhe dissera: "Seis meses no máximo". "É claro que não se pode calcular uma data para estas coisas. Vamos fazer por si tudo o que pudermos, senhor Mário. Vamos fazer tudo o que for humanamente possível... Ainda pode viver um bom tempo, e levar uma vida, quase, normal...
Mas ele marcara uma data num calendário mental: seis meses. A 1 de janeiro de 2003, faria seis meses. E pronto. E ali estava ele, ainda vivo, esquecendo-se quase de que ia morrer...
Despiu-se depressa, enfiou a bata de exame, em papel branco, e deitou-se na marquesa fria.

Depois o horror invadiu-o novamente. Seis meses atrás tinha planeado estar morto por volta daquele dia. E se já estivesse morto não teria agora de voltar a passar pela humilhação de ter de expor aquele corpo envelhecido e repelente outra vez.
As coisas arrastavam-se. Terapêutica de radiações, em breve quimioterapia, todos os meios legítimos de adiamento.
Perdera a maior parte do cabelo, os olhos afundaram-se ainda mais... Mas quando, se olhava no espelho, sabia que aquele velho que estava ali na sua frente, já não era ele... 

|