Anjos selvagens

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Estava a passar ferias em Lisboa. Á  descoberta do famoso sol  e, claro!, do mito do homem latino.  O sol era ainda mais escaldante que rezava a propaganda mas quanto ao mito do homem latino, nem tanto. Pelo menos até ao meu terceiro dia. Não que antes os não tivesse encontrado bons, e mais que eficientes nas artes do sexo. Mas não achei que fossem muito melhores que os franceses.  No fundo o que eu procurava, era algo diferente, afinal, estava de ferias, não  é ? Lisboa  é de facto uma cidade encantadora e com uma calma que não é possível encontrar nem na maioria das cidades mais pequenas do resto da Europa, quanto mais numa capital. Acho-a algo parecida com Marcelhe, mais pelas pessoas, e pelo ambiente misto, do que pelos edifícios, muitos deles em estado perfeitamente ruinoso, o que lhes confere um ar algo decadente dando por vezes a impressão de vagarmos por uma cidade fantasma, sobretudo aos fins de semana quando quase todas as lojas fecham, com a excepção de alguns cafés e restaurantes e os lisboetas desaparecem, quase, que misteriosamente, entregando a cidade aos bandos de turistas.

Seguindo o roteiro gay do Spartacus, fui dar comigo a vaguear pela gare do Rossio, um edifício antigo com uma fachada apalaçada lindíssima, uma verdadeira preciosidade que me lembrou Veneza. Este encantador edifício é dividido por 3 pisos.  No ultimo fica a gare do comboio, no segundo um centro comercial e no rés do chão os guinches de venda de  bilhetes, um espaço amplo onde vagueavam algumas das personagens mais misteriosas e interessantes que conheci nessa minha curta estadia  na cidade alfacinha.

Devo referir, que quase todos os prostitutos eram muito novos e lindíssimos mas havia um que me despertou particular atenção. Ao ponto de me dispor a fazer algo que nunca antes ousara sequer imaginar. Pagar para ter sexo. Não que tivesse algum tipo de preconceito contra tais praticas. Apenas nunca precisara de o fazer. No incido pensei apenas em meter conversa com ele, ou pelo menos acreditei que era apenas isso, pois ansiava por saber algo sobre aquele rapaz que me parecia tão diferente de todos os prostitutos que já vira. Pois enquanto os outros iam ter com os possíveis clientes, e ostentavam um ar atrevido e insinuante, ele contentava-se a observar-nos  com aquele seu olhar que tudo parecia açambarcar e ao mesmo tempo sem se deter em ninguém. Esperei em vão que reparasse em mim, antes de me atrever a ir falar com ele, ou na esperança que fosse ele a dirigir-se-me, mas não. Continuava aparentemente indiferente a todos os meus olhares.

Como se passou imenso tempo e nada acontecia, decidi tomar coragem e dirigi-me a ele. E como falo um pouco de português, que aprendi com um namorado brasileiro, perguntei-lhe se estava interessado em ir comigo. Nesse momento olhou-me com aqueles seus olhos brilhantes e ávidos como se fosse a primeira vez, e sorriu-me. E tinha um sorriso tão encantador  e ao mesmo tempo tão tímido e doce, que me esqueci imediatamente que estava a falar com um prostituto. Ou pelo menos era isso que eu pensava que ele era. Mais por ele estar ali naquele local do que pela sua atitude e aparência.

Respondeu-me que sim. Não falamos em preço. E afastamo-nos do edifício lado a lado conversando simplesmente como duas pessoas que acabaram de se conhecer. Chamava-se Pedro. Tinha uma figura um pouco mais baixa que a minha, que tenho um metro e setenta e seis, e uma cabeleira castanha com reflexos dourados pelo sol, olhos castanhos, um rosto levemente bronzeado. E um corpo magro, de adolescente, com formas perfeitas. Envergava uma t-shirt de um azul manchado tal como as calças de ganga azuis muito claras, tão na moda, e uns ténis Puma pretos, não se diferenciando muito da forma como eu estava vestido nem, de resto, da maioria dos outros rapazes com quem nos cruzávamos pois era assim que quase toda a gente já se vestia tanto em Lisboa, como em Paris ou em qualquer outra parte do mundo onde as pessoas se vestem todas da mesma maneira.

Pedro conduziu-me através de uma escadaria, para uma pensão, não muito longe dali, a meio caminho de quem sobe para o Bairro Alto. A pensão ficava numa rua muito estreita, e antes de entrarmos, parei um pouco para recuperar o folgo, e ao olhar para traz, não pude deixar de me extasiar com a vista perfeita da parte mais baixa da cidade coroada pelo castelo de São Jorge, num cenário verdadeiramente magico...

A dona da pensão era uma matrona corpulenta de cabelo, quase, vermelho, e ainda mais maquilhada, que as putas velhas que se encontram há noite na Avenida dos Restauradores á  cata de clientes. E antes que abríssemos a boca, foi logo perguntando se tínhamos o "BI" (cartão de identidade) ou "passaporte". E quando Pedro lhe respondeu que não, disse que sem identificação nada feito, que a policia estava sempre a aparecer de surpresa para fazer rusgas e não queria ter mais problemas. E avisou que dificilmente encontraríamos alguém por aquelas bandas que aceitasse alugar-nos um quarto nessas condições...

Pareceu-me estranho que Pedro não soubesse disto, habituado que devia estar a frequentar estes locais com os seus clientes. Mas nem me atrevi a questiona-lo. Receava estragar aquele clima de romantismo que sentia haver entre nós. Pois parecia-me que ele tb me desejava tanto quanto eu a ele. Ou seria apenas imaginação minha ?

Voltámos pelo mesmo caminho descendo em direcção ao local onde nos encontrámos, em paços muito lentos como se ambos desejássemos prolongar aqueles momentos. Em silencio, sem trocarmos uma única palavra desde que saíramos da pensão. Eu olhava para ele, ele olhava para mim, sorriamos um para o outro, felizes. Como se não precisássemos dizer nada... Sentia-me tão bem ali na sua companhia, que a cidade me pareceu ainda mais bela e misteriosa,  aquela luz de fim de tarde, levemente dourada, conferia-lhe uma atmosfera magica e quase irreal.

Chegados ao ponto de partida, ia despedir-me, quando me propôs que fosse com ele para sua casa na serra de Sintra. Aceitei imediatamente, radiante. E no caminho, de comboio, explicou-me que vivia com mais quatro amigos (todos eles prostitutos, conclui)  num palacete abandonado no meio da serra. No caminho pouco conversámos, pois o meu conhecimento da língua portuguesa era muito fraco e Pedro mal arranhava o francês.

A viagem demorou uns 40 minutos, e no final de uma deprimente selva de pedra, entrámos num túnel escuro e quando voltámos a ver a luz do dia já tínhamos entrado dentro da vila de Sintra.

A vila é muito antiga com chalés encantadores, esculpida na encosta de uma da serra, cujo cume, ostenta um misterioso castelo. Cheia de turistas coloridos, casas de chá,  e de pequenas lojas de antiguidades que nos transportam constantemente ao passado.  Deixámos a vila e embrenhamo-nos pela serra a dentro subindo sempre, rodeados por uma floresta densa e luxuriante com palácios tão maravilhosos e surpreendentes que nos custa acreditar que sejam reais.

Algum tempo depois, no final de um estreito caminho de terra batida, e onde mal dava para ver o céu, tão obstruído pela densa folhagem das árvores, a poucos metros da estrada, parámos perante um enorme portão de ferro, que Pedro empurrou e entrámos.
Subitamente, tive a plena sensação de estar a entrar no paraíso,  tal a beleza do lugar. E Pedro só podia ser um anjo.

Deparei com um palacete enegrecido pelo tempo e pela humidade mas em muito bom estado de conservação.  Rodeado por um jardim tão luxuriante e florido, que seria impossível descrever tanta beleza. Azaleias, camélias, hortênsias... Cobertas de flores tão belas e exuberantes, como eu nunca antes tinha visto. E estava tudo tão bem cuidado que era difícil acreditar que estivesse abandonado...

O interior era absolutamente sumptuoso e os poucos móveis que o decoravam, pareciam tão antigos quanto o palacete. Como entretanto escurecera, Pedro riscou um fósforo e acendeu uma vela de cera e com ela foi acendendo outras  velas espalhadas pelo enorme salão. Depois pegou num dos enormes castiçais dourados e subiu a escadaria principal que dava para o segundo piso.  Eu mal podia acreditar no que me estava a acontecer. E perguntei-me se não estaria a sonhar. No cimo da escadaria, Pedro voltou-se para mim, e convidou-me para subir. Obedeci e fui conduzido por um corredor que dava para vários quartos e entrámos num deles. Pedro pousou o castiçal sobre o único móvel existente, uma cómoda de madeira escura , semelhante ás que admirara em lojas de antiguidades, e apontou para a cama. Era uma cama tb muito antiga em madeira preta toda trabalhada. As roupas da cama tb já não eram novas, e a colcha estava tão gasto que parecia ter mais de 100 anos, tal como todos os objectos por ali... Quando Pedro começou a despir-se, oferendo-me a sua nudez, perguntei-me se não estaria mesmo a sonhar!

Na manhã seguinte acordei muito cedo e por instantes, não me lembrei de onde estava. Ao meu lado, Pedro ainda dormia. Com medo de o acordar, não me mexi e fiquei apenas a contemplá-lo.
Quem seria ele ? Que outros segredos e mistérios esconderia ?
La fora o sol ainda estava baixo e o silencio era tão profundo, que nem o canto dos pássaros o conseguia penetrar.

Quando Pedro acordou saltou da cama, enfiou rapidamente as calças e deixou o quarto sem mesmo olhar para mim como se nem se lembrasse mais da minha presença ali, o que me fez sentir desiludido. Tínhamos tido uma noite tão romântica!

Antes de sair da cama, demorei-me um pouco a reflectir sobre tudo o que me tinha acontecido desde que tinha posto os olhos naquele rapaz maravilhoso, e cheguei  á triste conclusão de que nunca tinha vivido verdadeiramente até ai. Nunca antes havia saboreado a vida de uma forma tão intensa e  nem mesmo ousado sequer imaginá-lo. E perguntei-me se depois de ter provado o verdadeiro sabor da felicidade, e do prazer ao lado de Pedro, conseguiria retomar essa vida pacata e sem grandes surpresas nem palpitações, que me aguardava em Paris ?

Descia a escadaria sorrateiro com paços de gato como se receasse denunciar a minha presença, pois sentia-me um pouco inseguro depois  da estranha indiferença de Pedro, e tb porque escutava outras vozes vindas do jardim, e receava ser inoportuno. Quando ia a meio da escadaria, fui surpreendido por um rapaz  que entrou de rompante no alle. Estava nu, e para meu grande espanto, não parecia ter pénis... No entanto, era belíssimo, tanto quanto Pedro, de corpo imberbe, e de uma sensualidade absolutamente arrebatadora. Quando me avistou, virou-se surpreendido e deteve-se por breves instantes, a observar-me, silencioso, sem se mostrar incomodado com a minha presença. E foi nessa altura, que pude confirmar as minhas suspeitas. Ele não possuía pénis. E no lugar deste, vi uma vagina... Depois retomou o seu paço apressado e desapareceu por uma das portas interiores, sem que houvesse-mos trocado uma palavra.

La fora no jardim, encontrei mais dois rapazes além de Pedro e estavam igualmente nus a banhar-se num tanque servido por uma fonte de água natural, límpida e brilhante. Antes que me vissem aproveitei para  observa-los em pormenor e percebi que Pedro era o único que possuía pénis. Quando deram pela minha presença Pedro fez um gesto a convidar-me a entrar dentro do tanque e quando recusei começaram ambos a atirar-me com jactos de água, enquanto gritavam e riam totalmente eufóricos e felizes, até eu ficar com a roupa toda encharcada.  Subitamente, o rapaz que encontrara no alle surgiu por trás de mim, e antes que eu conseguisse desviar-me, atirou-me dentro de água. E todos saltaram imediatamente sobre mim puxando-me pelos braços, e pelas pernas ao mesmo tempo que me iam arrancando as roupas entre gritos de euforia e gargalhadas...  Quando, por fim vencidos  pelo cansaço,  um deles saiu da água e voltou pouco depois com uma braçada de frutas que despejou dentro do tanque. Uvas, laranjas, bananas, morangos... Era o nosso pequeno almoço!

Mais tarde saíram todos do tanque e fiquei, finalmente, sozinho com Pedro. Pouco depois, um deles apareceu com uma braçada de rosas e camélias de varias cores, atirou-as sobre nós, e afastou-se a sorrir.  As flores  ficaram a flutuar sobre a água rodeando-nos, e criando um cenário mágico. Pedro aproximou-se de mim, colando seu corpo no meu, e beijámo-nos apaixonadamente, amando-nos dentro de  água...

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