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O rapaz que fazia magia

Dedico este conto ao Daniel Santos, e a todos os rapazes que já me fizeram  muito feliz.
Ah!, e tb ao Zé Carlos do blog
Janelas Abertas (http://j.cb.blog.uol.com.br/ ) que apesar de não conhecer pessoalmente, deve ser um verdadeiro "anjo"! 


Seis meses depois, Mário ainda continuava a sentir um indisfarçável prazer quando entrava no banco e via a placa na porta do seu gabinete: Mário Santos, gerente.
Apesar de se tratar da sucursal mais pequena das duas do banco para o qual trabalhava, aos 42 anos, Mário podia-se considerar um homem profissionalmente bem sucedido e com um futuro que se previa brilhante.

Entrou. Tinha uma figura pequena, que não ultrapassava  1,70 m, mas atraente no seu fato de bom corte, cinzento, que lhe dava um ar um tanto austero e cerimonioso. Embora se vestisse sempre assim para trabalhar, nesse dia tinha um aspecto ainda mais formal do que o habitual porque ao meio dia ia ter uma reunião com os membros mais antigos do banco e um ou dois queriam apanhá-lo em falta. Ele não tinha sido o seu candidato preferido para o lugar, e tinham tendência a menospreza-lo por ainda continuar solteiro e sem constituir família. Além disso, tinha cometido outro crime, ainda mais grave: aparentar, menos de 30 anos, e ser demasiado inteligente e criativo.

Durante as primeiras semanas, tinha tido que impor a sua vontade com firmeza, o que não agradara a algumas pessoas. Principalmente aos mais velhos que não viam com bons olhos serem mandados por alguém "tão novo". Agora, tinha menos problemas, mas tinha de ter cuidado. A sua arma secreta eram uns óculos de armação castanha e sóbria. Não que tivesse problemas de visão, usava-os apenas quando tinha que impressionar e mostrar um ar ainda mais sério e maduro.

Enquanto atravessava o chão de mármore a caminho do seu gabinete, olhou para o grupo de pessoas que esperavam para falar com ele. O primeiro da fila era um jovem completamente desfocado daquele ambiente e Mário não conseguiu evitar ficar a olhar para ele. Era difícil ficar indiferente perante tanta beleza, sensualidade, e juventude. O rapaz usava calças de ganga justas, já muito surradas e uma t-shirt justa azul escura que realçava todos os traços do seu corpo bem constituído e definido. Tinha o cabelo louro, liso, levemente despenteado, e uns lábios grossos, muito vermelhos em contraste com uma pele muito clara e aveludada. Mas o que mais atraiu Mário, foi a sua juventude exuberante e, quase, selvagem...

Mário abanou a cabeça enquanto perguntava a si mesmo se aquele belo rapaz poderia ser igualmente gay ? De qualquer maneira, havia qualquer coisa nele que mudou o ambiente cinzento do banco. Foi com esforço que voltou á realidade.
Ao lado do rapaz estava o senhor Neves, um homem idoso que não deixava de olhar para o relógio.
Depois, para seu horror, estava a senhora Rosa, uma velhota viúva que vivia de um subsidio que cada vez valia menos. A senhora Rosa era uma mulher de outra época que não percebia nada de dinheiro, mas que tinha uma fé cega em que Mário lhe resolveria de forma mágica, todos os seus problemas.
A situação da velha senhora devia ter piorado porque ao vê-lo, agarrou-lhe no braço e começou a falar-lhe dos seus problemas. No mesmo instante, o senhor Neves interrompe-os.
- caso não saiba, há uma ordem de chegada.
- Oh, meu Deus, desculpe - gaguejou a velhota, visivelmente perturbada. - desculpe, mas...
- Não suporto as pessoas que furam as bichas (filas)- anunciou o velho em voz alta e desagradável.
- Não vejo ninguém que tenha furado a bicha - observou o rapaz louro num tom cínico.
- Disparates. O senhor viu o mesmo que eu e esta senhora saltou a vez dela.
- Não saltou nada - insistiu o rapaz - Eu sou o primeiro e ofereci-me para trocar de lugar com ela, está a ver ? - O rapaz levantou-se e sentou-se do outro lado do senhor Neves, ocupando o lugar que a senhora Rosa acabara de deixar vazio. - Agora, a senhora ficou com o meu lugar e eu com o dela e o senhor continua a ser o segundo, tal como era. Não há necessidade de fazer um escândalo... - E sorriu para a velhota. - Não se preocupe, minha senhora, está tudo bem.

- Oh, muito obrigada, muito obrigada. Deus lhe pague - agradeceu.
Depois voltou a pendurar-se no braço de Mário e recomeçou a falar.
- Desculpe, não queria entrar em saldo negativo e quando vi o encargo da conta... - A velhota quase chorava enquanto apertava cada vez mais o braço de Mário.
- Quando se entra em saldo negativo temos que cobrar o encargo - explicou-lhe gentilmente, - contudo, como a senhora é cliente á tantos anos, veremos o que podemos fazer... Ana, podes chegar aqui um momento, por favor ?
Uma jovem de cabelo muito louro quase branco, saiu detrás do balcão.
- Senhora Rosa, a Ana vai resolver tudo agora mesmo.
- Oh, muito obrigado

A velhota foi com Ana libertando-lhe finalmente o braço.
Quando se voltou para o rapaz louro, viu que este o olhava fixamente com um sorriso que lhe realçava os olhos do azul mais brilhante que tinha visto na vida. Sentiu um impulso arrebatador de lhe devolver o sorriso, mas conteve-se.
- Vou ter de esperar muito tempo? - perguntou o velho irritado.
- Já pode entrar, senhor Neves - Disse-lhe Mário, imperturbável. - Embora, como já lhe expliquei na carta que lhe enviei, não posso fazer nada no seu caso.
Passaram 15 minutos durante os quais o velho tentou força-lo a aumentar-lhe o crédito que lhe tinham dado, mesmo depois de ter ultrapassado o limite por sua culpa. O seu fracasso pô-lo ainda mais mal disposto.
- Vou escrever para a sede e queixar-me de si - ameaçou, enquanto Mário o acompanhava á porta.
- Acho que é o melhor, faça isso - respondeu friamente. - Bom dia, senhor Neves.
Depois, sorriu ao rapaz.
- Vou atende-lo já.
- Não se preocupe não tenho pressa. Estou muito bem onde estou - disse-lhe sorridente.
O rapaz apontou para a senhora Rosa que tinha voltado e se tinha sentado a seu lado. Agora, a velhota tinha uma expressão muito mais viva e alegre.
Mário fechou a porta do seu gabinete, mas ainda ouviu o velho dizer.
- Não pense que vai conseguir alguma coisa com esse gerente...
- Talvez não - respondeu o rapaz, - mas a natureza não me «favoreceu» com a sua simpatia e o seu encanto!
Mário sorriu. Embora não soubesse o que o tinha levado ao banco, era inegável que ele tinha alegrado aquele local.

Antes de o mandar entrar no gabinete, fez um telefonema em resposta a uma nota que a sua secretária lhe tinha deixado em cima da mesa.
- Queria falar com o senhor Pedro Reis, por favor...Pedro ? Recebi a tua mensagem...
Pedro Reis, era um médico com quem ele andava havia uns de 20 anos. Era recto, respeitável, amoroso, inteligente, culto, e um escravo do trabalho. O companheiro perfeito para a vida inteira. A sua voz ganhou subitamente um tom paternal e meigo ao ouvir a voz dele.
- Só queria ver se o que combinámos para hoje á noite se mantêm - disse Pedro. - Reservei uma mesa no teu restaurante preferido.
- Sim. Mal posso esperar pela hora do jantar. Murmurou com doçura.
- Então, vou buscar-te ás sete...
- Está bem.
- Então, até logo amorzinho. Amo-te muito.
- Eu também te amo muito... Coisinho!
Amava muito de Pedro mas a verdade é que era cada vez menos o tempo que passavam juntos. Como um médico bem sucedido ele era demasiado ocupado e, ainda por cima, andava ao mesmo tempo com outro... Pois, tinham uma relação muito liberal. E Mário sentia-se sempre demasiado só.
Por fim abriu a porta e sorriu para o rapaz.
- Já pode entrar.
O rapaz levantou-se. Tinha uma figura muito e esbelta. No gabinete de Mário, sentou-se numa cadeira em frente da secretaria e esticou as pernas até ficar confortável.

Era uma figura incongruente com a severidade do escritório, mais pelo brilho dos seus olhos que pelo seu estilo informal. E foi esse brilho que mais cativou Mário.
- Aquele sujeito era insuportável. Costuma ter de aturar muitos clientes assim durante o dia ? - Perguntou, olhando-o fixamente nos olhos ao mesmo tempo que sorria de uma forma encantadora.
Mário teve a sensação de que o brilho do seu olhar iluminava o gabinete ao mesmo tempo que começava a despertar dentro dele emoções há muito esquecidas.
- Bom, diga-me então o que é que eu posso fazer por si, por favor ? - Perguntou com firmeza tentando quebrar o ambiente de intimidade que parecia ameaçar instalar-se entre os dois, enquanto abria a caixa dos óculos...

- Preciso de 1000 euros...
- E para que precisa desse dinheiro ?
- Para comprar um computador.
- Um computador ?
- Sim. Para me expandir no negócio. Trabalho com fogos de artificio. Quero comprar fogos de artificio melhores e fazer exibições maiores e mais completas. Tenho muitas ideias em relação a como melhorar o espectáculo, mas falta-me o dinheiro necessário. Com 1000 euros, podia comprar um computador que me iria ajudar muito no meu trabalho...
- Há quanto tempo é que trabalha nesse ramo ?
- Há seis meses.
- Qual è o seu nome e morada ?
- Vivo numa roulotte.

Mário, deixou cair a caneta em cima da mesa da secretaria e suspirou.
-Lamento, mas se não possui uma morada fixa, não lhe podemos conceder um empréstimo.
- Mas eu tenho muitos clientes...
- Lamento. - Repetiu Mário com firmeza.
- Mas eu ainda não lhe falei sobre o meu negócio. Veja.
O rapaz tirou um álbum de fotografias e abri-o em cima da secretária. Estava cheio de fotografias ampliadas de fogos de artificio, explodindo em cores brilhantes: rosas, azuis, vermelhos, verdes, amarelos e brancos.

- Este é o meu trabalho - disse ele. - Contratam-me de todas as partes do país. Uma roulotte é a maneira mais eficiente de viver e trabalhar neste negócio.
- Tem alguém que possa ser seu fiador ?
- Ninguém a quem eu queira pedir. Quero fazer isto sozinho.
- Está a pôr-me tudo muito difícil... Tenho de meter estes dados no computador e com os resultados que tenho o computador desatava a rir.
- Os computadores não riem, isso é o mal deles. As pessoas riem-se, cantam, choram e admiram-se nos meus espectáculos e depois vão-se embora felizes. O que é que os computadores sabem disso ?
- Estou perfeitamente de acordo, mas preciso de qualquer coisa mais do que a sua imaginação...

- Oh, sim, a imaginação... Que pecado!
- Está a fazer-me perder tempo... Isto é um banco, não somos a Santa Casa. Enfim, se não tem ninguém para fiador, diga-me, quanto é que vale o material que tem ?
- Tenho uns 8.000 mil euros em fogos de artificio neste momento, mas como esta noite vou utilizar a maioria, não vai restar muito...


- O que é que há na sua roulotte ? Quanto é que ela pode valer ?
- Nada, comprei-a em terceira mão. Está sempre a estragar-se e passo a vida a arranja-la...
Mário, desesperado, voltou a atirar a caneta para cima da mesa.
- Acho difícil de acreditar que tenha tido a coragem de vir aqui pedir um empréstimo... - disse Mário sem conseguir controlar a agressividade que de repente se apoderara dele.
- Não está a contar com o meu talento nem com o meu trabalho, acha que isso não vale nada ?
- Infelizmente, não se pode representar com contas e números...
- E se não me posso representar com contas e números é como se não existisse, não é ? As pessoas como você dão-me pena.
- Alem de ser irresponsável, é impertinente...
-Dá-me pena porque não consegue levantar a cabeça dos números.
- É um requisito do meu trabalho...

- O senhor é demasiado jovem e bonito para se consumir entre quatro paredes com a sua secretaria e o seu computador.
Mário ficou perplexo. Como é que ele sabia que era gay ? Que atrevido!
- A minha vida não lhe diz respeito, mas vou dizer-lhe uma coisa: baseia-se em valores morais e credibilidade, coisas de que o senhor nem parece ter ouvido falar.
-Pelo contrario, ouvi falar disso até demais... como se fosse a única coisa importante neste mundo. E fica tudo reduzido a quê ? Á sua procura infinita de dinheiro ?
- Deixe-me recordar-lhe, que o senhor veio aqui á procura de dinheiro...
- Sim, é verdade mas só para o transformar numa coisa maravilhosa.
- Em fogo de artificio - disse Mário com desdém. - Por favor!
- Uma exibição de fogo de artificio pode ser uma obra de arte...
- Como é que se atreve a comparar-se com um artista ?
- Sou mais artista do que o que pintou estes quadros que tem pendurados nesta parede. Sabia que os escolheram porque transmitem paz mental ? Noutras palavras, o seu valor está na sua neutralidade. A arte devia fazer gritar e chorar as pessoas, e, nesse sentido, sou um artista.

- Bom, acho que isso é tudo o que ...- Mário usou um tom de voz que indicava que dava por acabada a entrevista.
- Posso fazê-lo ver o universo como nunca o viu - continuou ele, interrompendo-o - Posso mostrar-lhe todas as cores do arco Íris a chover-lhe de mil maneiras. Aposto que não há cor na sua vida...
- Sou empregado de um balcão, não me pagam para pôr cor na minha vida . Respondeu Mário seriamente.
- E o seu coração ? - de repente, o rapaz olho-o com um olhar ainda mais penetrante como se o quisesse atingir bem fundo.
- Não veio aqui para falar no meu coração.
- A quem é que pertence ?
- Já chega. Por favor, peço-lhe que se vá embora.
- Se me for embora é porque falhei.

- Falhou. Este banco não vai poder dar-lhe nenhum empréstimo.
- Não estou a falar do meu empréstimo, mas de si, de um jovem fechado num buraco. Se o pudesse tirar deste buraco, podia mostrar-lhe maravilhas...
Mário sentia que tinha sido traído pelo seu próprio olhar. A expressão do rapaz indicava-lhe que já não estava a falar de fogo de artificio.
- Maravilhas- repetiu o rapaz com uma voz que, misteriosamente, se tinha suavizado. - Magia. Percebe alguma coisa de magia ?
- Eu... Não.
- Não, claro que não. Para si só há uma vida, o aqui e agora. Mas o que é que me diz do outro mundo onde acontecem coisas maravilhosas ? Se não entrar em contacto com esse mundo não vai saber nunca o que é realmente viver. O seu namorado, sério, que tb usa gravata, ensinou-lhe o que é magia ?
De repente Mário sentiu que o rapaz tinha razão. Tinha acabado de completar 42 anos, e a sensação que tinha, era de haver desperdiçado a maior parte da sua juventude...

- Já chega - disse Mário com firmeza. - Desculpe, mas não lhe posso dar o empréstimo.
- Não decida ainda -disse o rapaz sem prestar atenção ás suas palavras. - Venha ver o meu espectáculo. É hoje á noite, como encerramento das festas daqui. Vejamos se a gloria do fogo de artificio não o fazem mudar de ideias.
- Nada me vai fazer mudar de ideias- Disse com algum desespero.
- Bom, então...até logo á noite!
Junto da porta despediram-se com um aperto de mãos. No mesmo instante Mário sentiu como se tivesse recebido uma descarga eléctrica.
- Adeus, senhor Gil.

Quando o rapaz se foi embora, respirou profundamente. Olhou á volta e, de repente, aquele gabinete parecia vazio demais, sem encanto....como uma prisão. E era assim que se sentia também por dentro.
Depois fechou os olhos e abanou a cabeça para clarificar as ideias.
A porta voltou a abrir-se e a senhora Rosa entrou.
- Só vim para lhe agradecer - disse a velhota, - não queria incomoda-lo enquanto estava com aquele jovem tão simpático e agradável.
- Uma pessoa estranhíssima! - Retorqui-o contrariado.
- Não sei o que têm os jovens de hoje - disse a velhota. - Já não têm ideais nem valores. Mas claro, felizmente que existem algumas excepções - , emendou a velhota, olhando para ele.

Ás sete horas em ponto, Pedro foi busca-lo a casa e foram no seu carro brilhante ao restaurante gay mais selecto e caro da pequena cidade.

Uma vez ai, o empregado conduzi-os a uma das poucas mesas ainda vazias, junto a uma janela que dava para um pequeno pátio ajardinado onde se podia admirar varias acácias em flor que lançavam um perfume embriagante no ar. Mário reparou discretamente nos outros pares de gays que se encontravam no restaurante e sentiu-se bem por estar ali rodeado por outras pessoas como ele e ao lado do homem que tanto amava. Naquela atmosfera familiar e na companhia de Pedro podia-se relaxar. Pedro tinha 38 anos mas também parecia ter bem menos idade.
- Será que as obras da nossa casa de campo vão finalmente ficar prontas, no final do mês ? - murmurou Pedro com preocupação.

- Espero bem que sim. Também já estou farto de esperar. Até parece que aquilo não anda e o dinheiro que temos disponível para as obras está todo a desaparecer rapidamente...
- Estou ansioso para ter logo a nossa casinha de campo pronta... - disse Pedro num tom doce e apaixonado.
- Também eu, amorzinho...
- Desculpa mas infelizmente, não vou poder ficar mais tempo contigo depois de jantarmos - disse-lhe Pedro com alguma tristeza - mas combinei passar por casa de uma colega por causa de um trabalho muito importante, para o meu doutoramento...

- Está bem - disse conformado. Já estava habituado - eu aproveito e talvez vá dar uma olhada no fogo de artificio.
- Sim, boa ideia faz isso. Eu posso levar-te lá e depois combinamos um local para eu te ir pôr em casa depois de me ter despachado....
Já passavam da 9 horas quando saíram do restaurante. O trajecto de carro até á feira só demorou uns minutos. Quando saio do carro, reparou numa roulotte que estava debaixo de uma árvores. Num dos lados da roulotte lia-se: "O maravilhoso fogo de artificio do Gil". Mas não havia rasto do seu dono.

Saio do carro, depois de se ter despedido de Pedro e combinado naquele mesmo local por volta da 11,30 h, e dirigiu-se á feira na expectativa de apreciar "as maravilhas do fogo de artificio" de que o rapaz tanto lhe falara.
Naquela noite, uma estranha inquietação tinha-se apoderado dele, empurrando-o a vaguear por entre as pessoas que enchiam o recinto da feira, quase sem se dar conta de que na verdade ansiava voltar a encontrar aquele rapaz maravilhoso que tanto o havia impressionado.
- Senhores e senhoras, o fogo de artificio vai começar nos campos adjacentes ao recinto... - a voz vinha de uns altifalantes. E pareceu-lhe ser a voz de Gil.
Momentos depois, os primeiros foguetes explodiam deixando rastos de luzes douradas no céu escuro. A multidão olhava para o céu e exclamava.
Avistou Gil em cima de uma plataforma, a lançar os foguetes. As luzes e as sombras conferiam-lhe o aspecto de um mago. Observo-o com fascínio. Ele dominava o fogo... Era mágico! E, percebeu que até àquele momento, na sua vida não tinha havido muita magia.
Gil lançou três foguetes, um depois do outro. Quando chegaram lá em cima explodiram em nuvens de chuva dourada. As pessoas espantavam-se quando, separados, cada um voltou a explodir em luzes multicolores que caíram como chapéus de chuva.
Mais foguetes a explodirem como flores no céu negro. Cores incríveis. Não eram só cores, mas tons de luzes. Luz Beleza...
Havia arte mas também havia inteligência.
Mário olhou á volta. Como o rapaz lhe tinha dito, todos olhavam para cima com olhos brilhantes e um sorriso nos lábios. Os rostos das crianças estavam maravilhados.
E então acabou. A ultima luz extinguiu-se no céu e a multidão deu um suspiro em conjunto. De má vontade, todos baixaram o olhar para a terra, de regresso aos problemas do quotidiano que, tinham esquecido por breves instantes.
Gil saltou da plataforma e aterrou quase á sua frente. Sorria.
- Vieste. Eu sabia que vinhas- disse feliz.
- Foi por acaso que...
- Claro. E felizmente que há acasos. Que seria da vida sem estas surpresas ?
- Não sei - respondeu, a devolver-lhe o sorriso. - Talvez, tenhas descoberto o segredo...
Um miúdo de uns 16 anos aproximou-se.
- Gil, deixa-me arrumar tudo, por favor - disse num tom urgente.
- Está bem, Luís. Já sabes onde está o balde, faz isso bem.
- Posso vir amanhã ajudar-te ?
- Não - respondeu o rapaz com firmeza. - Amanhã, vais ao centro de emprego procurar um trabalho a sério.
- Eu gosto deste - protestou o miúdo.
- Vamos, vai trabalhar - disse-lhe Gil, sem desviar o olhar de Mário um instante.
O miúdo fez uma careta, mas foi-se embora.
Em resposta á expressão interrogativa de Mário. Gil explicou-lhe:
- O Luís é um chavalo daqui que gosta de vir ajudar-me. Não o posso contratar, mas deixo-o fazer algum trabalho de vez em quando. Agora, foi apanhar os foguetes que não explodiram; e mete-los em água para evitar problemas. Vem, vamos.
Gil pegou-lhe no braço e começou a caminhar.
- A onde vamos ?
- Beber um chá, tenho a garganta seca.
Parou em frente de uma carrinha que vendia chá e o servia em copos de plástico. A Mário soube-lhe melhor do que o vinho que bebera no restaurante.
E sentiu uma coisa muito estranha que ao principio não reconheceu. Era como um prazer imenso e radiante que começava no coração e depois alastrava para as extremidades... Sentia-se vivo. Não se lembrava de já ter sentido algo parecido. Por fim, apercebeu-se que era felicidade pura e simples.
E era por estar com aquele rapaz, com aquela criatura extraordinária que criava maravilhas, magia!
Então maravilhou-se consigo mesmo. O que é que tinha acontecido ao Mário de sempre ? O rapaz era só alguém que tinha feito uns truques inteligentes com pólvora e ele não era uma pessoa fácil de entusiasmar. Contudo, continuou a sentir-se muito feliz.
- Gil, ora estás aqui! - exclamou um homem forte que se aproximou deles.
O rapaz fez as apresentações. O intruso era um gay de meia idade, um bocado efeminado, e o responsável pela organização da feira.
- O fogo foi muito bom - disse, cravando os olhos em Mário. - O melhor que eu já vi. Ficas contratado para o ano que vem.
-Se ainda tiver o negócio... - respondeu Gil.
- Claro que sim, vais ter muito trabalho. Bom, pega no teu cheque e assina aqui.
Quando o homem se foi embora, Mário olhou-o com uma expressão duvidosa.
- Juro-te que não tinha planeado que ele aparece-se aqui á tua frente- disse Gil com a mão sobre o coração.
- Pois! Não me surpreendia nada! Mas não me digas que aquilo de «se ainda tiver o negócio» não era para mim ?!
- Bom, se calhar, mas olha - e mostrou-lhe o cheque de 3.000 euros. - Não é mau de todo, não é ?
- E desses dinheiro, quanto é que é o lucro e quanto é que vais gastar em material para o próximo espectáculo ?
- Por favor, deixa de ser tão prático...
- Deixa de ser prático! E quer ele que o banco lhe empreste dinheiro!
- Bom, agora que já viste, o que é que achas-te ?
- Maravilhoso. E és um artista, mas...
Gil tocou-lhe nos lábios para o calar, provocando-lhe um ligeiro tremor.
- Agora não, deixa o «mas» para depois. Há quanto tempo é que não vens a uma feira ?
- Oh... há anos.
- Nesse caso, vamos aproveitar.
Sem lhe dar tempo para falar, Gil pegou-lhe no braço e arrastou-o até á «Serpente». Num instante, viu-se sentado num carrinho enquanto alguém lhes punha uma barra de metal á frente.
- Estás maluco - disse a rir- nunca andei nisto.
- Mais uma razão para o fazeres agora - Gil pegou-lhe na mão. Esquece que és o gerente de uma sucursal bancaria por uma noite. Transforma-te numa pessoa normal e desfruta destes prazeres simples.
De repente, para Mário era obvio que era assim que devia viver a vida. Não podia imaginar como tinha conseguido viver tanto tempo sem compreender uma verdade tão vital. Apertou as mãos de Gil e lançou um grito surdo quando o carro se pôs em movimento.
O percurso era circular, com duas subidas seguidas de duas descidas vertiginosas. Depois da primeira agarrou-se ao braço de Gil. Depois, recuperado da surpresa, agarrou-se á barra de segurança. Mas não deixava de escorregar para baixo.
- Não te preocupes, eu seguro-te - Gil pôs-lhe um braço á volta enquanto agarrava na barra com outra mão.
Devia sentir-se seguro, mas era a ultima coisa que sentia. O mago emanava um poder carregado de electricidade que sentia em si próprio... Devia estar louco para ter concordado em sentar-se ali com ele. E se algum dos seus colegas ou clientes do banco o vissem ?
Mas Mário já tinha perdido todo o controlo sobre si mesmo e não conseguia deixar de se sentir demasiado feliz e completamente despreocupado ao lado daquele rapaz maravilhoso.
Quando finalmente, a serpente parou, sentiu o bafo quente de Gil e, subitamente, julgou que este o ia beijar. Mas Gil ficou parado a olha-lo nos olhos e as suas bocas estavam tão perto uma da outra que sentiu que a boca de Gil esperava ansiosamente pela sua. E completamente hipnotizado por aqueles lábios sensuais e vermelhos como morangos, não hesitou e beijou-os com paixão... E foi como se o tempo tivesse parado nesse mesmo instante e nada á sua volta tivesse mais importância.
Quando chegou a hora de ir ter ao local onde havia marcado com Pedro, despediu-se de Gil.
Sentia-se completamente eufórico e feliz com o que lhe tinha acontecido. Era obvio que estava completamente apaixonado por aquele rapaz maravilhoso... Que horror! Logo ele. O director de um banco, que tinha de manter uma imagem séria e responsável. Ir apaixonar-se por um mágico, como se fosse um adolescente.
- O que é que te aconteceu ? - perguntou-lhe Pedro desconfiado - deves ter conhecido alguém...Não me enganas. Conheço-te!
- Sim. Conheci um rapaz maravilhoso e lindo que tem todo o tempo de mundo para mim. E em exclusivo! - Ironizou.
- Bem sabes que não tenho culpa. Estás a ser injusto. Mas ainda bem que estás feliz.
Pedro estava tão seguro em relação ao amor de Mário e na "relação" que tinham, que encarou tudo como mais uma paixonite... Mas Mário não estava tão certo disso...

Na manhã seguinte, acordou com a sensação de que tinha vivido um sonho na noite anterior na feira com aquele rapaz maravilhoso. Mas também se sentia um bocado ridículo por ter sucumbido tão facilmente aos encantos de Gil. Ele que já passara dos 40...
Soltou um grito, quando se lembrou da facilidade com que tinha arriscado beija-lo em publico, na roda gigante. E não lhe podia ter sabido melhor aquele beijo. E durante aqueles momentos tinha-se entregue totalmente, tal como um adolescente ao seu primeiro beijo...
Aquele rapaz representava tudo o que ele mais temia: irresponsabilidade, e instabilidade emocional. Que o conduziria inevitavelmente para uma situação perigosa. Pois, estava a atravessar uma boa face financeira e profissional, e isso só se devia ao facto de se entregar, quase, inteiramente ao trabalho no banco. Como poderia ser capaz de conciliar uma paixão que ameaçava ser completamente avassaladora, com contas e números ?

Estava demasiado habituado a levar uma vida refinada e desafogada, para se conseguir imaginar a viver na dureza ao lado de um rapaz, que tinha menos dinheiro para gastar durante o mês, do que ele costumava gastar num só dia em roupas e mimos...
Mas receava que fosse tarde demais, pois a febre da paixão já se começava a apoderar de si era fácil perceber, os estragos que esta iria causar na sua vida.
Tantos anos tentando amadurecer emocionalmente, construindo uma relação madura e sólida, para agora se deixar enredar numa aventura totalmente irresponsável... Mas talvez ainda fosse tempo de recuar...
Enquanto conduzia para o trabalho, tomou várias decisões. Aquilo não poderia continuar. Ia dar instruções aos empregados para que, quando Gil aparecesse no banco, não o incomodarem.

Assim que entrou lá dentro, chamou a secretária ao seu gabinete.
- Quero que tomes nota disto - disse com uma voz profissional - Se um tal Gil aparecer hoje de manhã para levantar um cheque da câmara, por favor, certifica-te de que...
Parou de falar e respirou profundamente. Enquanto lhe surgiam imagens de luzes coloridas no céu, pessoas a rir, exclamações de admiração, os braços de Gil á volta do seu pescoço... aquele beijo!
- Sim ? - perguntou a secretária, que o olhava fixamente.
- Por favor, certifica-te de que... Me chamam para eu falar com ele.
- É uma quantia importante ?
- 1000 euros.
A secretaria franziu o sobrolho.

- Por uma quantia assim, não costumas...
- Ana por favor, faz o que te pedi. E diz a todos.
- Sim, está bem...
Tentou em vão concentrar-se no trabalho. Chegou o meio dia, mas Gil não tinha dado sinal de vida.
Decidiu comer uma sandes de queijo, que trouxera de casa, no seu gabinete, em vez de ir almoçar. O tempo continuou a passar e o banco fechou como sempre ás 3.
Ficou a trabalhar mais uma hora, antes de dizer á sua secretária.
- Tenho de me ir embora. Deixa esses papeis em cima da minha mesa, vejo-os amanhã.

Quase correu até ao carro e, pouco depois, ia a caminho do recinto da feira.
Quando lá chegou, encontrou o local desolado. Os quiosques e as tendas tinham misteriosamente desaparecido e estavam a desmontar as atracções. A roulotte, também já não estava lá.
De repente, sentiu-se evadido por uma enorme sensação de amargura e solidão. O mago tinha-se esfumado. Ficou com medo de não voltar a vê-lo.

- Estás á procura do Gil ?
Mário sobressaltou-se. Virou a cabeça e viu um homem de idade avançada, dono da carrinha de chá.
- Sim. Ele disse-me onde ia, mas esqueci-me de apontar e... - o seu atrapalhamento parecia típico de um adolescente.
- O Gil foi lançar uns foguetes na festa de aniversário do filho de um senhor que esteve aqui, hoje de manhã...
- Não me sabe indicar onde fica esse local ?

O velhote franziu o sobrolho enquanto Mário continha a respiração.
- Acho que ele falou na Rua dos Amores. Que fica em Vila Alegre...
A Vila Alegre ficava perto dali, Mário decidiu pôr-se imediatamente a caminho.
Por fim avistou a Rua dos Amores. Era uma rua ampla e ladeada de árvores frondosas ao longo dos passeios. As habitações eram constituídas de pequenos chalés, e todas possuíam um pequeno jardim na parte da frente, muito bem cuidados e floridos. E estavam pintadas com cores vivas e alegres. E como estava calor, quase todas tinham as janelas abertas, por onde se podia contemplar a alegria e o riso dos seus moradores, em contraste com os gritos alegres das crianças que brincavam soltas na rua. Não conseguiu evitar espreitar para o interior de algumas delas, e viu que todas pareciam ter um interior confortável e muito convidativo. Não havia dúvidas de que o nome da vila fazia todo o sentido. Era realmente um bairro muito "alegre". E não pode deixar de se imaginar a viver ali com... Gil! Mas, sentiu-se culpado por ter estes pensamentos quando se lembrou de Pedro.

Percorreu a rua devagar, olhando para um lado e para outro, completamente fascinado com aquele ambiente tão calmo e relaxante. E quase não via a carrinha do Gil que estava estacionada ao lado da garagem da casa que procurava.
Mal o avistou, não conseguiu evitar desatar a correr na sua direcção.
Quase lhe saltava o coração pela boca, quando avistou por fim Gil sentado dentro da carrinha a conferir uns papeis.
- Ainda bem que te encontro. Um velhote da feira disse-me que tinhas vindo para aqui...
- Esperei por ti até ás 5 - disse Gil, feliz por o ter ali na sua frente - de repente surgiu-me este trabalho. E como pensei que já não vinhas...
- Desculpa, mas não me consegui despachar mais cedo... Tive um dia muito atribulado no banco
- Eu sei. E nem percebo como és capaz de aguentar aquela rotina todos os dias.
- Que remédio! - Suspirou Mário sem esconder a resignação. - Podes ir lá amanhã para falarmos melhor sobre o teu empréstimo...

- Pensei que não me ias dar nenhum empréstimo ?
- Pois, mas depois do que vi ontem á noite, mudei de opinião.
- Entra - Pediu Gil, a retirar-se para o interior da roulotte.
No interior, encontrou um espaço habitável, apesar de bastante reduzido, cheio de caixas que tinham foguetes, cabos, ganchos e todas as ferramentas da profissão. Contudo, estava muito mais arrumado do que Mário esperava. Não faltava sequer alguns objectos decorativos sobre os pequenos móveis de madeira, nem umas prateleiras cheias de livros. E olhando em pormenor, pode descobrir alguns títulos bastante sugestivos, como "Querelhe" de jean Genet, "Um belo quarto vazio" de Edmundo White, ou "não digas a ninguém", de Jaime Byly... Assim como uma data de revistas gays estrangeiras dentro de uma caixa de papelão, arrumada por debaixo da cama, e ainda um número da "Super G", atirados sobre o assento forrado com tecido xadrez, mostrando o seu interesse pela leitura.

E isso agradou a Mário porque tb ele adorava quase tudo o que era papel impresso. E sempre duvidava das pessoas que não gostam de ler. Mas, o que mais chamou a sua atenção, era um póster promocional da Super G, onde se podia ler "Gays que (também) funcionem á frente, procuram-se ". E não pode evitar um sorriso, e perguntou-se, se Gil, apesar do seu ar imaculadamente másculo, também funcionaria devidamente na frente... Mas desejava-o com tanta intensidade que nesse instante essa questão lhe pareceu perfeitamente irrelevante.
E naquele momento, sentiu que seria bem capaz de trocar todo o conforto do seu espaçoso e confortável apartamento num dos melhores bairros da cidade, para viver, para sempre, ali ao lado de Gil. Na verdade, era isso mesmo, que ele mais desejava fazer naquele instante.
- Deixa-me olhar para ti, Gil pôs-lhe as mãos sobre os ombros, e perguntou: Estás bem ?

- Claro que sim, e porque é que não havia de estar ?
- Pela maneira como desapareceste ontem á noite... Deixaste-me preocupado... O teu namorado não ficou chateado por teres ficado comigo até tão tarde ?
- Não. Mas deixemos o meu namorado fora disto - respondeu com rispidez.
- É melhor, - concordou - falemos então de nós.
Desviou os olhos de Gil, não queria que ele notasse o enorme prazer e a satisfação que sentia, por estar ali na sua companhia.
Gil pôs água ao lume e arranjou-lhe um lugar no sofá. A atmosfera era acolhedora e doméstica. Muito diferente da extravagancia da noite anterior.
Gil acabava de servir o chá, quando bateram á porta da roulotte. Logo a seguir, a porta abriu-se e um homem pôs cabeça lá para dentro.
- Gil, ainda bem que já chegaste.

- Boa noite, senhor Luís.
O senhor Luís tinha um olhar devorador e indiscreto, que se voltou a cravar em Mário, sem se desviar um instante, enquanto falava com Gil.
- Não me tinhas dito que ias trazer o teu namorado para ajudar. Já combinámos o preço, não te vou pagar mais - disse em tom de brincadeira.
- E eu também não lhe vou pedir mais, senhor Luís, conheço bem a sua fama de sovina...- retorquiu Gil a rir.
- Ainda bem que está tudo certo. Venham, vou-lhes mostrar onde podem colocar as vossas coisas.

Mário ia começar a explicar-lhe que não estava ali para ajudar Gil, mas o homem tinha já dado meia volta e estava a chamar outro indivíduo, que entretanto aparecera espreitando da janela do andar de cima.
- Este é o bairro gay mais típico da cidade. Eles, como muitos outros aqui, vivem juntos com o filho de um deles como uma verdadeira família - segredou-lhe Gil, enquanto carregava uma das caixas para fora da roulotte.
- Pois, isso eu já tinha percebido, mas ainda não sabia que éramos namorados - disse-lhe com ironia, tentando manter um ar sério.
- E se eu te pedir namoro agora mesmo, aceitas ?
- Aceito - respondeu, olhando-o nos olhos - mas só com uma condição..., disse, tens de me retribuir o beijo que te dei ontem na feira.
Gil, pousou imediatamente a caixa no chão, aproximou-se dele, puxou-o para si, e beijou-o demoradamente na boca ainda com mais ardor e paixão do que na noite anterior...

Quando o rapaz acabou de o beijar, Mário parecia paralisado, e Gil teve de o abanar para o acordar.
- Agora vamos - pediu Gil - não tenho a noite toda.
Quando tudo ficou pronto, Gil ligou um cabo eléctrico onde colocou os foguetes, separando-os com intervalos de um metro. Dentro de casa, a festa já tinha começado. E lá fora, ficara completamente escuro. Gil tirou uma lanterna grande, deu-a a Mário e pediu-lhe que segurasse nela.
Mário, ficou a olhar para ele. Gil estava de cócoras, com a cabeça baixa, concentrado no que estava a fazer. Com surpresa, percebeu que se estava a divertir.
- Já podem começar a lançar o fogo de artificio - anunciou o senhor Luís.
Na noite anterior, quando viu o espectáculo de Gil, tinha ficado encantado, mas desta vez a experiência foi diferente. Correu daqui para ali enquanto Gil gritava ordens. Gil não estava a ser desagradável de preposito, mas era simplesmente um artista. Provavelmente, pensou, Miguel Angelo também tinha sido um pouco brusco enquanto pintava a capela Sistina...

- Agarra nisto - gritava Gil - agora, vai lá atrás e liga o interruptor quando eu te disser. Raios partam, preciso de mais foguetes. Há uma caixa em cima da mesa, traz-ma.
- O quê ?
- Traz-ma, despacha-te.
- Sim, senhor!
Mário correu para a carrinha, encontrou a caixa e voltou com ela a correr como se a sua vida dependesse disso. Durante um segundo, perguntou a si mesmo que raio estava ali a fazer. A única coisa que sabia era que nunca na vida se tinha divertido tanto.

O fim foi uma série de foguetes. Mário tapou os ouvidos. Sobre a luz intermitente, Gil sorria feliz enquanto carregava nos interruptores aqui e acolá fazendo com que o céu explodisse num ruído ensurdecedor.
De repente, o silencio. O último foguete tinha-se apagado. Os espectadores esfregaram os olhos. Houve muitos aplausos e murmúrios de espanto e deslumbramento. Os pares de amantes sorriam felizes uns para os outros e apertavam-se ainda mais, beijando-se apaixonados, enquanto as crianças saltitavam eufóricas e felizes por entre a multidão.
Mário sentiu uma emoção e uma alegria completamente trasbordantes que lhe deram uma vontade enorme de correr na direcção de Gil e cobri-lo, mesmo ali de beijos e de abraços! Mas mais uma vez se lembrou de Pedro e voltou a sentir-se culpado...

Depois escutou o senhor Luís dizer a Gil: - Parabéns, fizeste um óptimo trabalho. Não querem ficar para o resto da festa ? O teu namorado é muito delicioso! Fiquem connosco. Não se vão arrepender - disse num tom jocoso.
- Não, obrigado. Temos outros planos para o resto da noite - respondeu Gil, piscando o olho e afastando-se.
Mário sentiu um arrepio de tesão pelo corpo todo, ao perceber os planos de Gil. E como ele o desejava!
- Ei, vamos - berrou-lhe, Gil - É hora de arrumar.
Ajudou-o a recolher o equipamento e a mete-lo na carrinha. Por fim, Gil regressou. Nesse momento, outro homem aproximou-se, - disseram-me para lhes dar isto - disse, entregando-lhes um saco de papel. Dentro do saco estava uma garrafa de champanhe. Gil agradeceu e o homem desapareceu sempre a sorrir.
- Vamos comemorar ? Propôs Gil puxando-o para dentro da roulotte.
- Comemorar o quê ? Perguntou-lhe Mário com espanto.
- Não acabámos de ficar noivos ? Ou será que não estavas a falar a sério ?
- Nunca falei tão a sério - respondeu-lhe emocionado.

- Então, vamos festejar, mas primeiro...
- Primeiro o quê ? - Interrompeu, fingindo não entender o que Gil tinha em mente.
Já no interior da roulotte, Gil respondeu-lhe com um beijo na boca ainda mais demorado e ardente do que o primeiro...

Depois de horas a fazerem amor repararam que já tinha amanhecido e as pessoas começam a ouvir-se lá fora. Gil lembrou-se que tinham deixado a roulotte mal estacionada e não tardaria que alguém começasse a reclamar.
- É melhor irmos embora daqui, estamos a tapar a entrada duma garagem - disse, enquanto se esticava para agarrar as cuecas atiradas no chão. Mário também procurou as suas com os olhos e ia levantar-se para agarrar as calças, quando Gil o deteve empurrando-o sobre a cama.
- Não, não te vistas ainda que eu vou tirar a roulotte daqui e estacionar num local onde vamos poder continuar á vontade.
- Estás louco ? Esqueces-te que hoje é dia de trabalho ? Não sou um aventureiro irresponsável como tu ?
Gil olho-o fixamente sem conseguir disfarçar a desilusão.
- Pareces outra vez o gerente de um banco - reclamou.
- Eu sou o gerente de um banco.
- Sim, então volta para o teu banco - protestou magoado.
- Depois a gente vê-se por ai... - disse Mário secamente.
- Quer dizer que para ti esta noite não significou nada ?
- Pelo contrário, jamais esquecerei esta noite, foi maravilhoso, mas não posso trocar tudo o que consegui até aqui por uma aventura...
- Então para ti tudo isto não passou de mais uma aventura ...- insistiu Gil cada vez mais magoado e triste.

- Depois a gente conversa melhor, tenho de ir abrir o banco e já estou atrasado...
Mas antes de deixar a roulotte meteu a mão no bolso e tirou lá de dentro um cheque e coloco-o sobre a cama.
- O que é isso - perguntou Gil chocado.
- Estou a dar-te um empréstimo. Não é o que querias ?
- Sim, mas...desta forma até parece que...
- Nada disso, não te ponhas a imaginar coisas. Isto é apenas um empréstimo. E espero que me possas devolver esta quantia muito em breve - respondeu afastando-se.

Durante o trajecto para o banco , Mário recordou tudo o que vivera nesses últimos dias com Gil e sentiu como tudo aquilo lhe estava a fazer bem mas receava que já não conseguisse libertar-se de Gil, e e temia mais que tudo colocar a sua relação com Pedro em risco. A verdade, é que sempre levara uma vida demasiado racional e controlada e era a primeira vez que se entregava totalmente a uma paixão... E receava perder definitivamente o controle da sua vida. Se era que não o perdera já...
Gil era realmente uma maravilha, mas sabia bem que ele estava muito longe de possuir a maturidade suficiente para poderem manter uma relação minimamente estável. E não podia embarcar numa aventura totalmente irresponsável com ele, só porque o tinha conseguido seduzir com a sua magia, e colocar em risco toda a sua estabilidade emocional e financeira. Sabia-se suficientemente esperto para perceber que jamais conseguiria limitar-se a viver apenas uma simples aventura sexual, sem consequências, como seria o ideal.

O dia no banco decorreu tão enfadonho que era fácil de perceber que todos os dias dali para a frente não voltariam a ser os mesmos dias pachorrentos e calmos de antes. De repente, começou a questionar-se sobre a sua verdadeira vocação, e deu-se conta que aquele rapaz iria revolucionar totalmente a sua vida. Pois a coisa que mais ansiava era poder voltar para junto de Gil e ficar para sempre junto dele. Era como se tivesse provado uma droga e começasse a ficar cada vez mais dependente dela. Já não conseguia ser racional, e só pensava em voltar para os os braços de Gil porque só assim conseguia acalmar a ânsia e a inquietação que se apoderava cada vez mais de si.

Estava a perder-se e tinha plena consciência disso, mas cada vez mais incapaz de lutar contra o que estava a sentir. aquela paixão avassaladora estava a tomar totalmente conta da sua vida.
Por isso mal acabou o expediente no banco correu em busca da magia do mago e do seu irresistível fogo de artificio... Como se essa fosse a única coisa que realmente importasse.
Incomodado com o calor insuportável de agosto que lhe alagava corpo de suor, Gil arrancou a camisa e ofereceu ao sol o seu corpo forte de adolescente imberbe. E foi assim que Mário o surpreendeu tão sedutor e irresistível como um rebuçado que ansiava chupar com doçura... Por isso não perdeu tempo a arrasta-lo para o interior da roulotte onde se atiraram sobre a cama e se entregaram a uma tesão louca - á beira de voltarem a explodir num belo e prazeroso fogo de artificio...

A presença de Mário começou a rarear cada vez mais no banco. E, depois de tantas desculpas para justificar tantas faltas injustificáveis, não tardou a ser obrigado a pedir a demissão. O que o deixou de certa forma aliviado, já que o seu trabalho no banco começa a desagradar-lhe cada vez mais...

Reencontro com o passado
Mário estava tão mudado, que Pedro teve dificuldade em reconhece-lo quando o reencontrou alguns meses mais tarde a trabalhar juntamente com Gil. Agora formavam uma parceria e andavam por todo o país a fazer fogo de artificio.
Mário parecia ainda mais novo e estava bastante mais bonito. Era óbvio que a mudança de vida só lhe fizera bem. E mal o avistou, lançando-se feliz nos seus braços, perante o olhar ciumento de Gil.
- Oh, Pedro. Que saudades que eu já tinha de ti. Deixa-me ver como estás...deves ter começado finalmente a fazer exercícios. Estás mais magro, e lindo!
- Tu é que estás ainda mais bonito e jovem do que antes. Também tinha muitas saudades tuas. Vejo que esta aventura te está a fazer muito bem...
- Também não pareces ter razão de queixa. Não podias estar com melhor ar. Como é que vai o teu romance ?- Perguntou com alguma ironia.

- Vai bem, mas sabes que é a ti que eu amo, murmurou-lhe Pedro, com docura - Um dia ainda vamos voltar a ficar juntos...
Mário teve de se conter para não começar a chorar. Não se podia sentir mais feliz por viver ao lado de Gil, mas Pedro ainda fazia parte de si...
- E a quinta ? Já se instalam lá ? - Perguntou, em tom de provocação.
- Não. Está espera de nós. Sabes muito bem, que nunca levaria para lá ninguém. Aquilo é o nosso paraísinho, lembras-te ? Não fazia sentido levar para lá outra pessoa...

Nesse instante, Mário foi evadido pela nostalgia. E sentiu saudades, dos tempos em que partilhava a sua vida e os seus sonhos juntamente com Pedro. Lembrou-se da casa de ambos na quinta que tinham começado a reconstruir. No enorme jardim que ele mesmo tinha idealizado e criado... Nas flores maravilhosas que perfumavam esse paraíso maravilhoso que emoldurara aquela linda historia de amor eterno, que durara mais de 20 anos...  No soalho de cerâmica da sala enorme que ele mesmo começara a instalar e que deixara a meio. Na decoração que haviam idealizado juntos. Nos móveis antigos lindíssimos que iam comprando aos poucos em feiras de antiguidades... Na espaçosa cozinha onde mandaram construir uma enorme lareira que lhe recordava os anos da sua infância feliz na herdade alentejana onde crescera com os pais, os avós e os irmãos. Uma cozinha onde não faltavam os potes de doces confeccionados por si, e feitos com as frutas das arvores que ele mesmo plantara com as suas próprias mãos...

De repente, sentiu vontade de largar tudo outra vez e voltar definitivamente para casa com Pedro, e de tudo quanto o aguardava. Mas sabia que ainda não tinha chegado a hora certa de isso acontecer, porque a chama da sua paixão por Gil ainda continuava a arder demasiado forte. Por isso despediram-se com um beijo e voltou cada um para a sua nova vida e para junto dos seus novos companheiros...

Paraísos proibidos 
Dias depois, ao fazer compras num hipermercado, reencontrou um velho amigo dos tempos de liceu, com quem mantivera uma relação feliz de amizade, interrompida subitamente 7 anos atrás, quando Daniel se mudou para Paris com um grande amor.
- Vejo que a vida te tem corrido muito bem. Estás ainda mais maravilhoso e radiante do que da ultima vez em que nos vimos... Se soubesses como senti a tua falta em Paris!
- Também não te podes queixar. Estás com um aspecto maravilhoso e vejo que continuas o mesmo fofo de sempre. Também senti muito a tua falta. Não é fácil encontrar amigos como tu...
Abraçaram-se a rir felizes e radiantes por aquele reencontro, depois de tanto tempo...

Daniel usava um penteado jovem e radical que lhe dava um ar de adolescente, por isso os dois não aparentavam ter mais de 25 anos cada um.
Haviam escolhido viver as suas vidas de formas tão intensa e livre que o tempo para eles deixara simplesmente de existir. A sua realidade quântica era a única que movia os ponteiros do relógio das suas existências felizes e eternamente primaveris.
Daniel, continuava ágil, belo e esvoaçante como um bambi, e tal como Mário, era príncipe e senhor do reino encantado e encantador que ele próprio inventara. Por isso, eram como Deuses intocáveis, e inacessíveis para quem vivia á margem dos seus paraísos proibidos.

E assim, felizes e gratos, por aquele reencontro inesperado, riram e esvoaçaram juntos como duas pétalas de rosa... 

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